Rota Capixaba

Espírito Santo, 11 de Março de 2010

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Japoneses mostram a riqueza das areias de Guarapari

Por: Fabrício Faustini

Atualizado em 8 de Fevereiro de 2010

Foto: Charles Garcia
Décadas após a descoberta do alto teor de radioatividade existente em Guarapari, em especial nas areias monazíticas de suas praias, a cidade continua atraindo interessados nos possíveis benefícios para a saúde.

"Causos" de Turismo

Há dez anos, tive a oportunidade de acompanhar em Guarapari, um grupo de japoneses em dois dias que realmente não esquecerei. Quatro pesquisadores japoneses, acompanhados de três produtores de vídeo paulistas, estiveram no balneário com o objetivo de estudar de que forma a radioatividade se apresentava na cidade e qual a influência que exercia sobre moradores e visitantes.

O convite foi feito para que um trabalho, até então inédito e científico, fosse divulgado. A alegria, a dedicação ao trabalho, o entusiasmo e a motivação pelas descobertas dos orientais empolgaram a todos. Cientistas preparados que começavam o trabalho bem cedo e o prolongavam até bem tarde, sempre com a causa da descoberta e de novas surpresas.

O material, que transcrevo abaixo, serve também de alerta. Apesar dos inúmeros problemas de planejamento que se arrastam há quase 20 anos, Guarapari continua a atrair uma leva de pessoas que se encantam com suas belezas naturais, praias, potencial para mergulho e até uma fascinante área rural, pouco conhecida e que se organiza para receber visitantes.

Somente com planejamento adequado e participativo, ou seja, pensar e analisar antes as ações a desenvolver e com a escolha adequada de gestores e técnicos para cargos e órgãos competentes, os lugares e as comunidades se beneficiarão das decisões. As cidades não podem sofrer pela falta de compromisso, de preparo e ética de seus governantes e administradores.

Vamos lá, sobre nossa discussão nesse artigo esperamos por sua opinião, crítica ou sugestão. Foi uma bela experiência e queremos que compartilhe suas impressões conosco. Se também é um empolgado e admirador de Guarapari interaja com a gente. Aguardamos.

Radiação natural das areias de Guarapari provoca surpresa

O grupo de japoneses na época da visita era formado por um físico da Universidade de Kinki, Horoshige Morishima; um cientista do Governo de Kyoto, Naoto Fuginami; o produtor Juan Otaki e um diretor de TV, Keuchi Imamuri, da TV Aomori, sediada numa região ao Norte do Japão.

Clarisse Mariko Kimoto, que foi responsável pela produtora paulista de vídeo e acompanhou o grupo, disse que no Japão há muitas usinas de energia nuclear e existe um certo receio quanto à utilização da energia por elas geradas. Uma corrente de cientistas questiona a tolerância do organismo humano à radioatividade e os limites por ele suportáveis. Já outra corrente defende que a radioatividade é benéfica ao organismo das pessoas, quando existente na natureza. Se manipulada ou quando produzida de outra forma, pode causar danos à saúde.

Na época, o professor universitário, carioca e médico de uma estatal brasileira que trabalha com energia, Alexandre Oliveira, convidou os japoneses para vir à Guarapari, logo após um congresso realizado na China que tratava do tema radiação e eles aceitaram. “São pessoas que participam de eventos mundiais, centralizando as informações relacionadas à energia, inclusive, as produzidas naturalmente”, revelou Alexandre. O professor Horoshige Morishima trouxe equipamentos portáveis para fazer medições.

Lembro bem de como se esmeravam em suas pesquisas ao colocar os equipamentos sobre a terra e ao coletar amostras. Comparados os números coletados no início da década – quando se realizaram as primeiras análises e quando o lugar era uma vila com apenas 2 mil moradores – e os atuais, a pesquisa concluiu que o nível de radiação na cidade caiu, devido ao crescimento desordenado e a especulação imobiliária, no entanto, nas praias ainda é bem alto e significativo.

Raridade pouco conhecida

O professor Horoshige revelou que no mundo somente mais três lugares apresentam níveis como os de Guarapari: na China, na Índia e no Irã. Em nenhum deles, ao contrário do Espírito Santo, o turismo é explorado, pois são lugares isolados, remotos e pouco desenvolvidos, prejudicando inclusive sua utilização medicinal e científica. “Vocês capixabas têm uma grande vantagem. Estão perto de grandes mercados consumidores e de PIB considerável. Mas é preciso haver planejamento para que essa vantagem não traga também problemas pelo uso indiscriminado desse benefício tão raro e tentador”, disse na época, Horoshige.

Segundo o diretor da TV Aomori, Keuchi Imamuri, que tem um programa há mais de 20 anos regularmente no Japão, Guarapari foi uma grata surpresa. Os patrocinadores do programa são até hoje corporações que trabalham com todos os tipos de energia. Na época ele me disse que Guarapari é conhecida internacionalmente por causa de seu potencial medicinal descoberto há décadas.

Mas o grupo não tinha a expectativa que a cidade fosse tão grande, com boa infraestrutura e ótima localização, ao contrário de outras cidades em que estiveram pelo mundo. No Brasil, o grupo esteve, além de em Guarapari, em Poços de Caldas (Minas Gerais), e Pitangui, no Amazonas, com o objetivo de estudar a riqueza radioativa dessas regiões.

Doenças e localização

O cientista do Instituto de Higiene e Desenvolvimento Científico do Governo de Kyoto, Naoto Fuginami, lembrou que em 1960 o professor americano Aister Badim, junto a professores da PUC e da UFRJ realizaram um estudo fitogenético com a população. Há 10 anos outra avaliação voltou a ser feita e não foram detectados casos suspeitos de câncer.

Fuginami foi o responsável pela medição com os aparelhos e também pela coleta de material para análise. Ele me contou que em Meaípe e em praias próximas, como as da Enseada também foram detectados altos índices de radioatividade. Explicou ainda que no Japão a população é contra a utilização da radioatividade mais em função de danos ecológicos do que pela radiação em si.

“Existe uma corrente de cientistas mundiais que defende a ideia de que níveis de radiação baixos fazem bem a saúde, pois dilatam os vasos sanguíneos, relaxam e purificam o corpo. E existe outra corrente que é contra, pois acredita que possa causar doenças”, explicou. Para Fuginami, é difícil saber qual das correntes está correta.

Em Guarapari, as chances da radioatividade fazerem bem são grandes e consideráveis, pois além da radioatividade, fatores como o clima, a temperatura, as paisagens e a localização ajudam muito. Nesse contexto, uma fala do especialista me surpreendeu: “Os vários fatores associados, além do efeito psicológico vindos dele são favoráveis à cidade”, julgou.

Centro de Guarapari à noite.

Belezas e vídeos

De acordo com Clarisse Mariko, da produtora paulista que acompanhou o grupo, os japoneses somente conheciam a cidade de nome e nunca haviam visto fotos, e por isso se encantaram e a consideraram “lindíssima”. Ela destacou que os japoneses gostaram em especial dos cenários observados em alguns pontos turísticos, da hospitalidade dos moradores, dos frutos do mar e do tempero usado em seu preparo e da facilidade para filmar e fotografar os lugares.

Jun Otaki, produtor da TV Aomori do Japão, disse que a intenção do grupo foi estudar a radiação natural e o valor científico, além de coletar amostras pela cidade, já que para eles tratava-se de material muito raro e de grande valor para seus estudos. Mas diante de sua beleza e das facilidades obtidas, resolveram produzir um vídeo mostrando detalhes de Guarapari, destacando as praias, o artesanato, o mercado de peixes e os manguezais, a vista do edifício Guarapari Center – um dos mais antigos e altos da cidade. As características dos moradores, seu dia a dia e os hábitos também tiveram destaque na produção.

Desmistificação

O vídeo produzido na época foi divulgado nos anos seguintes junto ao material coletado e os resultados e as informações apuradas no trabalho, tanto no Japão, quanto em congressos e eventos diversos pelo mundo. O professor Marishima disse que a intenção do trabalho na época foi desmistificar a ideia de que a radiação pode fazer mal, pois em alguns lugares como em Guarapari há décadas é usada para fins medicinais. Registros históricos dão prova disso.

Segundo o especialista não se afirma que a radioatividade cura doenças, mas que seu benefício em alguns tratamentos é notório e pode ser surpreendente. Além disso, para ele, em lugares estruturados para o turismo, caso bem explorados com critérios e de maneira sustentável, os aspectos científicos e medicinais se beneficiam por atingirem um universo bem maior. Acompanhar esse grupo de cientistas japoneses e especialistas paulistas realmente me fez admirar seu estudo e, principalmente, uma cidade tão apaixonante e próxima como Guarapari.

É compromisso nosso preservá-la e cuidar para que melhore ainda mais. As areias monazíticas, apesar do descaso de anos por parte do poder público, ainda são um atrativo especial e esse “produto” merece ser preservado e divulgado. Os japoneses que o digam!!!

Curiosidades

As areias monazíticas de Guarapari foram descobertas em 1898 e, em 1906, a 'SOCIÉTE MINIÉRE ET INDUSTRIELLE FRANCO-BRASILIENSE' instalou em Guarapari a usina 'MIBRA - Monazita Ilmenita do Brasil' para fazer o beneficiamento destas areias, exportando, de maneira indiscriminada, o produto a ser tratado na França. A MIBRA era administrada pelo superintendente Borisw Davidovictch, cidadão russo naturalizado americano. Na Mibra as areias eram separadas por lavagens e posteriormente por eletroímãs em ordem decrescente.

A Mibra explorou as areias de Guarapari até os anos 60 quando o Governo começou a taxar realmente a sua exploração e exportação. Os proprietários da MIBRA, mostrando o tamanho da falta de sensibilidade, simplesmente, abandonaram tudo e foram embora, pois se deram como satisfeitos pela grande exploração feita até então.

Após o abandono da MIBRA, a 'NUCLEMON - Nuclebrás de Monazita e Associação Ltda', subsidiária da NUCLEBRÁS, passou a explorar as areias de Guarapari, mas o prefeito na época, Graciano Espíndula (1983/1988) proibiu a extração das areias nas praias da cidade.

Estas areias são indicadas para os casos de reumatismo articular e muscular, de artrite deformante e de diferentes etiologias, de nevralgias, mialgias e enfermidades muscular, alergias, sistema nervoso, gota, anemia, nervosismo, insônia, inapetência e perturbação digestiva.

Tipos de areia observados na cidade

Ilmenita - De cor preta, é constituída de titânio, ferro magnético e outros metais.

Granada - De cor vermelha, é encontrada em abundância em Guarapari, mas somente em pequenos cristais, o que a torna inaproveitável para a fabricação de joias. Contém, em proporções variáveis, o alumínio, o ferro, o cobre, o cálcio, o magnésio, o manganês e outros metais.

Monazítica - De cor amarela, é um fosfato. Contém tório de onde se extrai o hélio e outros elementos usados na desintegração atômica. As areias monazíticas foram inicialmente usadas pelo seu teor de tório cuja aplicação principal eram camisas incandescentes.

Monazita - De onde se obtém o cloreto, o óxido e o fluoreto, sais como o cério e o fosfato trissódico, usados em indústrias de grande sofisticação tecnológica. O Óxido de Neodímio, por exemplo, tem aplicação no raio laser e na fabricação de TV a cores. O Óxido de Cério é utilizado na fabricação de lentes fotográficas e na indústria ótica corretiva. O Óxido de Lantânio é usado em ótica de alta precisão e em ligas especiais.

Fabrício Faustini
Fabrício Faustini

Jornalista, bacharel em Turismo e especialista em Administração Estratégica e Tecnologia da Informação. Responde pela coluna de Turismo do site rotacapixaba.com ..

Comentários

Felipe Santos - 06/02/2010 08:16

Felipe Santos

É incrível como notícias tão boas como esta não estão em voga na mídia, enfim, esta publicação me parece inédita, pois nunca tinha ouvido falar de tal grupo de chineses em Guarapari. Falando em estrangeiros em terras capixabas, ouvi dizer do meu ex-professor da faculdade Mario Petrocchi que um grupo de catalãos vieram ao Estado fazer um planejamento estratégico de turismo, porém nunca saiu o papel ou foi engavetado por questões políticas, o que é ridículo para uma estado tão rico em todos os sentidos. Outra coisa é o aeroporto enfim, tem muita coisa pra se colocar em pauta na política pública para o turismo capixaba. Abraço a todos! Felipe Santos - Hoteleiro

Felipe Santos - 06/02/2010 08:19

Felipe Santos

Errata: Falei chineses mas são japoneses, desculpem a falha.

Célio Ricardo Machado - 22/02/2010 17:45

Célio Ricardo Machado

ありがとうと、私は非常によくでてりした

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