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Há 15 anos, não sei exatamente em qual estação do ano, eu lia a última página de um livro chamado A Arrogância no Poder, muito bem escrito, diga-se de passagem, pelo ex- deputado federal pelo Rio de Janeiro, Álvaro Valle, falecido há exatos dez anos.
Este livro traz uma compilação dos discursos e falas proferidas pelo nobre deputado da tribuna da Câmara dos Deputados, na sua brilhante carreira legislativa. Da tribuna, do auto do púlpito, quem a escala se impõe soberano sobre os pares que a tudo acompanham (ou não) e, principalmente, sobre a Nação. É uma espécie de arrogância consentida. Consentida porque não teria como ser diferente. Ao subir à tribuna, o político sim, está numa posição de superioridade.
Pois bem, recentemente a rainha Hortência, uma das maiores jogadoras da história do basquete mundial, não subiu à tribuna da Câmara, ou do Senado, ou da Assembleia Legislativa. Nossa eterna rainha escalou os degraus de uma Airbus, ou um Boing, talvez um teco-teco nacional, não sei, e foi em busca de um treinador para a seleção feminina de basquete.
Abramos um parêntese: quando Carlos Nunes foi eleito o novo presidente da combalida CBB, propagou-se aos quatro cantos do País que se iniciava uma nova era do basquete nacional, que tantas glórias já trouxe ao esporte nacional, e que nas últimas décadas viu-se desmoralizado, inerte.
Uma das ações do novo presidente foi trazer pessoas que conheciam e influenciavam o esporte no Brasil. Para cuidar do feminino ele trouxe Hortência e lhe deu carta branca para comandar a seleção feminina. Até aí nenhum problema. Justa a escolha. Fechemos o parêntese e voltemos ao avião.
Hortência decidiu, então, visitar os grandes centros do basquete mundial em busca de um treinador capaz de devolver o basquete feminino brasileiro ao caminho das glórias, das vitórias. Está certíssima. A experiência com Moncho Monsalve, na seleção masculina, mostrou-se um passo a frente da CBB, com resultados expressivos.
Se tivesse parado aí Hortência mereceria um prêmio. Mas, ela foi além. Disse que estava viajando o mundo atrás de um técnico porque os treinadores brasileiros estavam defasados e ela queria um técnico bem preparado, que falasse outros idiomas, que fosse realmente capacitado para o cargo. Aqui ela agiu errado. Por que um treinador alfabetizado em português não pode estar capacitado a trabalhar na seleção brasileira?
Entendo que a mudança era necessária. De repente, um técnico estrangeiro trará ao Brasil uma nova visão de jogo, mais atualizada e adequada ao que se vê atualmente no basquete mundial. Isso não se discute. Agora, Hortência, da maneira como colocou as coisas, faltou com respeito com os profissionais brasileiros que, em qualquer curso de beira de esquina, podem aprender noções de vários idiomas e, com o apoio da CBB que nunca tiveram, viajar o mundo em busca de atualização. Mal comparando, é como o governo sair distribuindo bolsas de estudos para conter a desigualdade reinante há séculos, ao invés de melhorar a educação de base. É a eterna busca brasileira pelo caminho mais fácil, menos oneroso e trabalhoso.
O resultado disso é uma revolta generalizada dos profissionais do basquete nacional que estão, com certa justiça, incomodados com a pecha de incompetentes e retrógrados que cai sobre seus ombros.
Faltou assessoria à Hortência. Há muitas formas de se dizer algo, e uma assessoria, normalmente, indica aquela que trafega longe da polêmica. A rainha Hortência preferiu chutar a porta, e foi indelicada, e até o momento não reconhece isso. Uma pena.
Espero que das viagens surja um grande técnico, pouco importa a nacionalidade do profissional. Um grande técnico que transforme a nossa seleção feminina.
O basquete precisa de resultados, não de polêmicas.
Universitário cursando o 5º período de Jornalismo no Centro Universitário da Cidade, no Rio de Janeiro. Contatos: feitoza.marcelo@gmail.com
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